Gravidade da Covid-19 pode estar relacionada ao sistema imunológico


Em quadros mais críticos da Covid-19, o sistema imune produz excesso de moléculas para atacar o coronavírus, com risco de ocorrência de danos aos pulmões. O fenômeno, chamado de tempestade de citocina, é apontado como alvo de futuros tratamentos
VS Vilhena Soares

Em quadros mais críticos da Covid-19, o sistema imune produz excesso de moléculas para atacar o coronavírus, com risco de ocorrência de danos aos pulmões. O fenômeno, chamado de tempestade de citocina, é apontado como alvo de futuros tratamentos(foto: AFP / Thibault Savary)
Em quadros mais críticos da Covid-19, o sistema imune produz excesso de moléculas para atacar o coronavírus, com risco de ocorrência de danos aos pulmões. O fenômeno, chamado de tempestade de citocina, é apontado como alvo de futuros tratamentos
(foto: AFP / Thibault Savary)
A maior parte dos casos de Covid-19 é considerada leve, com os pacientes se recuperando em um espaço curto de tempo. Mas os quadros graves precisam de internação, com risco alto de óbito. Cientistas tentam descobrir o que acontece no corpo dessas pessoas para que a infecção se agrave. Um grupo norte-americano acredita que isso ocorre devido a um problema no sistema imune, que passa a ter uma reação exagerada à presença do coronavírus. O trabalho foi publicado na última edição da revista especializada Journal of Experimental Medicine.
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No texto, os autores afirmam que, até agora, se sabe que os pacientes graves desenvolvem problemas como síndrome da angústia respiratória aguda (SDRA), inflamação pulmonar, secreções espessas de muco nas vias aéreas, danos pulmonares extensos e coágulos sanguíneos. Devido a essas complicações, esse estágio da doença é difícil de gerenciar. “Em muitos casos, os pacientes necessitam de ventilação mecânica invasiva e, ainda assim, um grande número deles não resiste”, frisam.

A equipe defende que a gravidade da Covid-19 pode ser causada pela ação exagerada de um elemento do sistema imune: os glóbulos brancos, conhecidos também como neutrófilos. Quando eles estão hiperativos, há um lançamento excessivo de citocinas no corpo, chamada de tempestade de citocina, que pode danificar o aparelho respiratório.

“A maioria dos pesquisadores do nosso grupo trabalhou com esse fenômeno em outras doenças e, quando começamos a ouvir sobre os sintomas das pessoas com Covid-19, pareciam familiares”, conta, em comunicado, Mikala Egeblad, pesquisadora do Cold Spring Harbor Laboratory, nos Estados Unidos, e uma das autoras do estudo.

Os pesquisadores explicam que esse fenômeno ocorre quando os neutrófilos detectam micro-organismos invasores. Eles, então, expelem DNA para atacá-los, junto com enzimas tóxicas chamadas NETs. As NETs podem capturar e digerir o patógeno indesejado, mas, no caso da síndrome da angústia respiratória aguda, podem danificar os pulmões e outros órgãos. “Dadas as claras semelhanças entre a apresentação clínica da Covid-19 grave e de outras doenças conhecidas causadas por NETs, como a SDRA, propomos que o excesso dessas enzimas pode desempenhar um papel importante na doença”, diz Betsy Barnes, autora principal do estudo e pesquisadora do Instituto de pesquisa Feinstein, nos Estados Unidos

Jonathan Spicer, cientista e cirurgião torácico do Hospital da Universidade McGill, também nos EUA, e um dos autores do estudo, relata que testemunhou os efeitos devastadores da infecção por Covid-19 em vários pacientes, o que, para ele, corrobora as suspeitas da tempestade de citocinas como um protagonista no avanço da Covid-19. “Observamos, nesses pacientes, danos pulmonares graves, conhecidos como a SDRA. Além disso, as vias aéreas geralmente estavam entupidas com muco espesso e eles tendiam a formar pequenos coágulos em todo o corpo a taxas muito mais altas do que o normal. Essas também são características que podem estar relacionadas com NETs”, detalha.

Mais análises

Os pesquisadores ressaltam que são necessárias análises mais minuciosas do fenômeno, mas acreditam que, caso as suspeitas se confirmem, uma nova série de tratamentos poderá ser desenvolvida contra a Covid-19. Eles cogitam também a possibilidade de uso de terapias prescritas para outras doenças ligadas à tempestade de citocinas — como fibrose cística, gota e artrite reumatoide.

Gesmar Rodrigues Silva, coordenador do Departamento Científico de Imunodeficiências da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), destaca que o estudo levanta uma hipótese que tem sido bastante discutida na área médica. “Essa tempestade de citocinas é algo que realmente pensamos que pode ocorrer, mas que seria apenas um dos fatores desse agravamento do paciente. Outras coisas podem estar envolvidas”, diz.

O médico também ressalta que um ponto importante a ser esclarecido é que não se sabe por que pacientes sofrem essa resposta intensa e outros, não. “Muitos especialistas acreditam que essa reação exagerada seria devido à exposição a uma quantidade grande ao vírus. Isso porque casos mais severos foram detectados em pessoas que trabalham na área de saúde e que estiveram mais expostas. Mas tudo isso é hipótese ainda”, contextualiza.

Para Gesmar Silva, caso a tempestade de citocinas seja realmente um dos fatores responsáveis pelas infecções graves de Covid-19, novos medicamentos serão desenvolvidos focados nesse mecanismo. “Pode ser o caso de uso de imunossupressores, medicamentos prescritos como terapia para outras doenças em que esse problema imune ocorre. Mas precisamos também avaliar os riscos, já que podem surgir problemas adversos”, diz.