Filtro de ar criado por americanos consegue impedir passagem do coronavírus

Equipamento feito com espuma de níquel, material usado para isolamento acústico, ajudará a conter a disseminação do Sars-CoV-2 em ambientes fechados. Em testes, dispositivo criado por cientistas americanos também consegue barrar esporos de antraz
PO Paloma Oliveto

A solução poderá ser usada em locais com maior concentração de pessoas, como escolas e hospitais(foto: AFP / Armend NIMANI)


Em meio às discussões sobre o potencial de contágio do Sars-CoV-2 pelo ar, pesquisadores da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, apresentaram o protótipo de um filtro que consegue eliminar 100% do micro-organismo em locais fechados. Na terça-feira, a Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta de que são crescentes as evidências de que o causador da covid-19 pode ser transmitido ao ar livre e “a dezenas de metros” de distância em ambientes internos. Embora parte da comunidade científica lance dúvidas sobre a transmissão desse vírus em áreas externas, é praticamente consenso que, dentro de casas, lojas, hospitais, aviões etc., o risco de contaminação é grande.
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Com a retomada das atividades laborais e comerciais em todo o mundo, Zhifeng Ren, diretor do Centro de Supercondutividade da Universidade de Houston, lembra que é urgente o desenvolvimento de tecnologias que evitem o contágio em ambientes internos. Um estudo realizado na China há dois meses, por exemplo, demonstrou que o ar-condicionado em um restaurante de Wuhan contaminou fregueses que almoçavam no mesmo setor em que se encontrava uma família que não sabia estar com a doença. Outra pesquisa, também chinesa, detectou quantidades consideráveis de partículas do Sars-CoV-2 na sala em que médicos de um hospital de referência no tratamento da covid-19 trocam de roupa.

Em um estudo publicado, agora, na revista Materials Today Physics, os pesquisadores de Houston demonstraram que, em uma única filtragem, 99,8% do novo coronavírus foi eliminado, assim como 99,9% dos esporos de antraz, infecção causada pela bactéria Bacillus anthracis. Esses testes foram realizados no Laboratório Nacional de Galveston, do Departamento Médico da universidade. O filtro é feito com uma espuma de níquel — material absorvente sonoro —aquecida a 200ºC.

Para os pesquisadores, o equipamento poderá ser usado em aeroportos, aviões, escolas, escritórios e navios de cruzeiro, evitando a disseminação da covid-19. “A capacidade do filtro de ajudar a controlar a propagação do vírus pode ser muito útil para a sociedade”, acredita Zhifeng Ren. Ele conta que a empresa de equipamentos médicos que fabricou o protótipo já quer, inclusive, desenvolver um modelo de mesa para proteger os trabalhadores em suas estações.

Suspenso por horas

Estudos anteriores realizados por outras equipes de pesquisadores indicam que o Sars-CoV-2 fica no ar por volta de três horas. Como o vírus também já se mostrou incapaz de sobreviver a temperaturas acima de 70ºC, os cientistas de Houston teorizaram que um filtro aquecido poderia retirar o micro-organismo de circulação e matá-lo. Nos testes de laboratório, a temperatura aplicada foi de 200ºC — sob esse calor, o patógeno morreu instantaneamente. O material escolhido para filtrar o ar foi a espuma de níquel, muito usada comercialmente no isolamento acústico. Ela é porosa, flexível e, como é condutora de eletricidade, pode ser aquecida.

Um problema inicial foi a resistência do material ao calor intenso, necessário para eliminar o vírus instantaneamente. Para contorná-lo, Ren decidiu dobrar a espuma e conectar os compartimentos do filtro com fios elétricos. Isso foi suficiente para que ela suportasse até 250ºC. “Essa fiação interna dispensou a necessidade de uma fonte externa para aquecer o filtro, e isso minimiza a quantidade de escape de calor. O sistema conferiu eficiência ao aparelho: o ar-condicionado funciona bem, sem muito esforço”, diz.

“Essa nova tecnologia de proteção do ar para ambientes internos oferece a primeira prevenção contra a transmissão aérea mediada pelo ambiente de Sars-CoV-2. Ela estará na vanguarda das tecnologias disponíveis para combater a pandemia atual e quaisquer futuras ameaças biológicas”, disse, em nota, um dos coautores do estudo, Faisal Cheema. Considerando a capacidade inicial de produção, os pesquisadores sugerem que, em um primeiro momento, o equipamento seja instalado em locais prioritários, onde há risco alto de exposição, como escolas e hospitais.

Carta aberta

No início da semana, uma carta assinada por mais de 200 cientistas pediu à OMS que fizesse um alerta público sobre a propagação aérea do Sars-CoV-2. “Existe um potencial significativo de exposição por inalação a vírus em gotículas respiratórias microscópicas (microgotas) a curtas e médias distâncias (até vários metros, em ambientes fechados e sem ventilação), e defendemos a utilização de medidas preventivas para mitigar esta via aérea de transmissão”, diz o texto.

“Prevenir a transmissão aérea da covid-19 deve ser a próxima frente da batalha contra o vírus”, argumenta Prashant Kumar, pesquisador do Centro Global de Pesquisa em Ar Limpo de Surrey, na Austrália, autor de um estudo sobre a contaminação do ar em ambientes internos. Ele explica que, como muitos vírus, o Sars-CoV-2 tem menos de 100mn de tamanho, mas as gotículas expiradas por pessoas que tossiram ou espirraram contêm água, sais e outros materiais orgânicos, além do próprio micro-organismo. À medida que esse conteúdo evapora, a matéria microscópica se torna pequena e leve o suficiente para permanecer suspensa no ar e, com o tempo, a concentração do vírus aumenta, assim como o risco de infecção.

Como o ar de ambientes internos é estagnado, o perigo é bem maior. “Devemos transformar essa tragédia global em uma oportunidade de melhorar a preparação para ameaças semelhantes”, sustenta Kumar. “Uma ventilação interna aprimorada é uma etapa importante que pode ser tomada para reduzir o risco de infecção. No entanto, é preciso fazer mais para reconhecer e entender a transmissão aérea do Sars-CoV-2 e de vírus semelhantes, para minimizar o acúmulo de ar carregado de vírus em locais que, normalmente, contêm altas densidades de pessoas”, observa.
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