Covid-19 pode causar diabetes tipo 1, indicam diferentes estudos

Estudos associam a infecção pelo Sars-CoV-2 ao tipo 1 da doença, que tem origem autoimune. Um paciente alemão foi diagnosticado após ter contato com o micro-organismo e, na Inglaterra, médicos observam um aumento no número de casos da enfermidade entre crianças

Paloma Oliveto
(foto: Noel Celis/AFP)
Seis meses depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarar a pandemia da covid-19, as sequelas da infecção começam a se evidenciar. Já se sabe que, além de redução na capacidade pulmonar, pacientes podem exibir problemas neurológicos e cardiovasculares, embora as pesquisas indiquem que se trata de manifestações passageiras. Um estudo publicado na revista Nature, porém, trouxe mais uma evidência de que o Sars-CoV-2 também pode desencadear problemas crônicos. No caso, a diabetes 1, uma doença autoimune.

Trata-se de um estudo de caso de um jovem, atualmente com 19 anos, que foi admitido aos 18 em um hospital de Kiel, na Alemanha. O rapaz foi diagnosticado com diabetes insulino-dependente (tipo 1) depois de se recuperar de uma infecção de Sars-CoV-2 assintomática. Embora o relato não estabeleça uma ligação causal entre covid-19 e diabetes, as descobertas sugerem que a infecção pelo coronavírus pode afetar negativamente a função do pâncreas humano — o órgão que controla os níveis de açúcar no sangue.

O Sars-CoV-2 entra nas células humanas ao se ligar à glicoproteína ACE2, que também é encontrada nas células beta pancreáticas humanas. Essas estruturas desempenham um papel fundamental na produção de insulina, e a ACE2 é conhecida por ser importante para a função delas. Vários estudos publicados recentemente indicam possíveis relações entre covid-19 e diabetes, mas os dados são insuficientes para afirmar que a doença causa diretamente diabetes em humanos.

Os autores do artigo descrevem um paciente branco, com 19 anos, admitido no Departamento de Emergência do Centro Médico Universitário de Schleswig-Holstein. Ele apresentava fadiga anormal, exaustão, sede excessiva e micção frequente. O jovem também havia perdido 12kg de peso corporal em várias semanas.

Os exames de sangue revelaram uma perda da função das células beta, entre outras características do diabetes. O paciente não tinha um genótipo que predispõe as pessoas a doenças autoimunes, mas possuía um risco genético ligeiramente elevado de diabetes tipo 1 autoimune.

No entanto, o jovem não tinha os anticorpos tipicamente detectados em pacientes com formas comuns dessa doença. Ao fazer o exame sorológico da covid-19, ele testou positivo para imunoglobulina G, mas não para imunoglobulina M, indicando que havia se infectado com Sars-CoV-2 entre cinco e sete semanas antes de dar entrada no hospital. Por volta dessa época, seus pais voltaram de uma viagem de esqui na Áustria e desenvolveram sintomas típicos da covid-19.

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Os altos níveis de hemoglobina A1 — um marcador que indica se os níveis de glicose no sangue estavam mais altos do que o normal — no momento do diagnóstico podem sugerir que ele desenvolveu recentemente diabetes tipo 1, antes da infecção por Sars-CoV-2. “Esse tipo de diabetes por deficiência de insulina, ou seja, diabetes tipo 1, geralmente é desencadeado por uma resposta autoimune, na qual o sistema imunológico identifica incorretamente as células beta do pâncreas como estranhas e as ataca. Mas essa resposta autoimune não estava presente nesse paciente. Presumimos que, aqui, o próprio vírus Sars-CoV-2 atacou as células beta”, diz Matthias Laudes, pesquisador da Universidade de Kiel, na Alemanha, e um dos autores do artigo, publicado on-line na revista Nature.

O estudo observa que a cetoacidose diabética (uma complicação séria do diabetes tipo 1, quando o corpo produz ácido sanguíneo em excesso) pode causar níveis elevados de hemoglobina A1C, independentemente da duração do diabetes. O paciente apresentou sintomas somente após a infecção.

Os autores concluíram que o estudo de caso não indica que a covid-19 causou diabetes nesse paciente, e a possibilidade de que ele pudesse ter uma forma rara de diabetes autoimune tipo 1 negativa para autoanticorpos não pode ser descartada. No entanto, eles argumentam que a infecção por Sars-CoV-2 pode afetar negativamente a função pancreática por meio de efeitos diretos do vírus nas células beta. “Mais pesquisas epidemiológicas e experimentais são necessárias para investigar possíveis ligações entre o coronavírus e o desenvolvimento de diabetes”, destaca Laudes.

Crianças
Há duas semanas, um estudo do Imperial College London, na Inglaterra, também fez uma associação entre covid-19 e desenvolvimento de diabetes 1 em crianças. A pesquisa foi feita com 30 menores de 18 anos, atendidos no hospital universitário da instituição, além de outro centro médico londrino. De acordo com o artigo, verificou-se o dobro do número de casos observados comumente.

“Nossa análise mostra que, durante o pico da pandemia, o número de novos casos de diabetes tipo 1 em crianças era incomumente alto em dois dos hospitais no noroeste de Londres em comparação com anos anteriores, e quando investigamos mais, algumas dessas crianças tinham coronavírus ativo ou já haviam sido expostas ao vírus”, afirma Karen Logan, pesquisadora do Instituto Wellcome Trust. “Parece que as crianças têm baixo risco de desenvolver casos graves da covid-19. No entanto, precisamos considerar potenciais complicações de saúde após a exposição ao vírus nessa faixa etária.”

No artigo, a equipe sugere que a proteína spike do coronavírus pode ser capaz de atacar e destruir as células produtoras de insulina no pâncreas. “Embora os dados não provêm uma ligação direta, acreditamos que o fato de ter havido um aumento significativo nos casos no pico da pandemia indica que é plausível que haja uma ligação entre alguns casos de diabetes de início recente em crianças e covid-19”, escreveram os pesquisadores.

Fonte.correiobraziliense.com.br/