O peso do Senado em 2026 e o jogo do percentual que no fim pode colocar Marcos Rocha com 80% de chances de ir ao Senado

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O peso do Senado em 2026 e o jogo do percentual que no fim pode colocar Marcos Rocha com 80% de chances de ir ao Senado


O Senado, Rondônia e o jogo que ninguém admite estar jogando

Cacoal, RO
- A eleição de 2026 não será apenas mais uma sucessão de nomes, partidos e alianças de conveniência. Será, gostem ou não, uma disputa silenciosa pelo controle do freio de mão da República. E esse freio atende por um nome pouco midiático, mas decisivo: Senado Federal.

Com 54 das 81 cadeiras em disputa, o Senado deixa definitivamente de ser figurante e reassume o centro do palco institucional. É ali que governos avançam ou empacam, que indicações ideológicas são barradas ou homologadas, que abusos encontram resistência — ou passam a ser institucionalizados. Em um ambiente de radicalização política e de um Executivo que testa, reiteradamente, os limites constitucionais, o Senado transformou-se na última instância real de contenção do poder.

É justamente por isso que a esquerda enxerga 2026 como uma eleição estratégica — ainda que evite admitir publicamente. Um Senado majoritariamente conservador tem sido, até aqui, o principal entrave a uma agenda que insiste em ressuscitar pautas já rejeitadas pela sociedade, embaladas sob novos nomes, narrativas "humanizadas" e uma retórica moralizante que tenta substituir o debate pelo constrangimento político. Diante dessa resistência, o governo Lula trabalha para nacionalizar a eleição, diluir forças regionais e vender a ideia de "governabilidade" — um conceito elegante que, fora do marketing institucional, significa menos limites, menos freios e maior liberdade para avançar sobre estruturas de controle.

É nesse tabuleiro maior que Rondônia surge como protagonista — e aqui reside uma das ironias mais mal compreendidas do sistema político brasileiro.

Demograficamente, Rondônia é um estado periférico. Tem pouco peso eleitoral quando comparado aos gigantes do Sudeste, do Sul ou mesmo do Nordeste e do Centro-Oeste. Na Câmara dos Deputados, sua força é residual: apenas 8 cadeiras entre 513 parlamentares. Mas o Senado não funciona pela lógica da população. Funciona pela lógica da federação.

No Senado, Rondônia vale exatamente o mesmo que São Paulo, Minas Gerais ou Bahia. Três senadores. Três votos. Três oitenta e um avos do poder de travar ou permitir os rumos institucionais do país. É essa matemática — simples, mas politicamente explosiva — que transforma estados considerados "menores" em peças centrais do jogo nacional.

Em 2026, Rondônia terá duas dessas três cadeiras em disputa. Confúcio Moura e Marcos Rogério encerram mandato em 2027; Jaime Bagattoli segue até 2031. Em um único ciclo eleitoral, o estado pode contribuir decisivamente para manter o atual equilíbrio do Senado — ou para enfraquecê-lo, abrindo espaço para uma maioria mais alinhada ao projeto de poder do Planalto.

Quando a partida cresce, o teatro inevitavelmente se intensifica.

Até pouco tempo, o governador Marcos Rocha era tratado como candidato quase natural ao Senado. De repente, passou a negar de forma enfática qualquer intenção de disputar. A justificativa é pragmática: não entregaria o governo ao vice, Sérgio Gonçalves, hoje adversário político declarado após um rompimento interno que expôs fissuras profundas no grupo governista. A explicação é lógica — mas, em política, lógica raramente encerra o debate.

Negativas categóricas costumam ser apenas o primeiro movimento de estratégias mais longas. Servem para testar o ambiente, medir rejeições, forçar reposicionamentos, atrair aliados e desorientar adversários. Mesmo que Rocha não venha a disputar, o simples fato de negar já reorganiza o xadrez estadual. Política não se move apenas por anúncios, mas pelo silêncio calculado e pelas ambiguidades cuidadosamente encenadas. Marcos Rocha diz que a chance de ele ser candidato seria de, no máximo 10%. Eu não diria que seria a ordem inversa. Lhe darei 10% para mais ou para menos e aponto sua chance real de pintar como candidato como sendo de 80%.

Essa indefinição, porém, mantém projetos inteiros em suspenso. A sucessão ao governo, as chapas proporcionais, os acordos para a Câmara Federal — tudo orbita em torno do chamado "efeito Senado". Trata-se de uma eleição que não escolhe apenas representantes, mas define quem pauta, quem resiste e quem se submete à lógica do poder central.

Para a direita, o recado deveria ser óbvio, mas historicamente tem sido ignorado: tratar o Senado como eleição secundária é um erro caro. Foi essa negligência que permitiu, em outros momentos, avanços institucionais questionáveis, relativização de garantias constitucionais e decisões impostas muito longe da soberania do voto popular.

Rondônia, estado de perfil majoritariamente conservador, carrega em 2026 uma responsabilidade desproporcional ao seu tamanho populacional — mas absolutamente compatível com o desenho da federação. Não se trata apenas de eleger dois senadores. Trata-se de decidir se continuará sendo um polo de contenção institucional ou se aceitará tornar-se apenas mais um número em um projeto de poder que não disfarça sua vocação centralizadora.

No fim das contas, o discurso público seguirá repetindo o roteiro clássico do "não sou candidato", "não é o momento", "vou cumprir meu mandato". Mas a política real continua acontecendo longe dos holofotes. E o Senado, discreto como sempre, permanece sendo o lugar onde o jogo de verdade é decidido.

Quem fingir que isso é detalhe corre o risco de acordar tarde demais — quando o freio já tiver sido solto e a descida, irreversível.

Fonte: Tribuna Popular
Texto: Daniel Oliveira da Paixão

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